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Maria Cristina da Cunha Pereira fala sobre o ensino de Língua Portuguesa para surdos.

A linguista da Derdic e professora da PUC de São Paulo trata dos desafios do aprendizado da linguagem escrita por alunos surdos.


Ter clareza de que a Língua Portuguesa - em sua modalidade escrita - é uma segunda língua para as pessoas surdas é uma premissa para poder realizar um bom trabalho de alfabetização desse público. Como a fala é um limite para esses alunos, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a língua que servirá de base para que aprendam a ler e a escrever em português (ou em qualquer outro idioma). Trata-se, portanto, de um processo bilíngue, conforme explica a professora Maria Cristina da Cunha Pereira, linguista da Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação (Derdic) e professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.
Doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e assessora da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Maria Cristina trabalha com ensino de Língua Portuguesa para surdos desde 1968 quando aceitou, pela primeira vez, o desafio de lecionar para adolescentes surdos. Nesta entrevista, a pesquisadora fala sobre as semelhanças e diferenças entre os processos de alfabetização de alunos ouvintes e não-ouvintes.
Por que não se deve forçar a fala numa criança que não escuta?
Maria Cristina da Cunha Pereira: Sou pesquisadora, portanto falo sempre do ponto de vista de um teórico. Se a criança surda tem uma limitação na audição, por que é que vou usar exatamente o que ela tem de dificuldade para que ela adquira linguagem? Por que é que eu vou forçar a audição e a fala numa pessoa que não escuta? Acredito que as famílias devem deixar seus filhos surdos terem contato com a língua de sinais. É por meio dessa língua que eles terão acesso ao conhecimento. Há um mito de que as crianças surdas que aprendem Libras ficam preguiçosas e não se esforçam para falar. Ter preguiça é uma prerrogativa de quem pode escolher. Não é por preguiça que os surdos não falam, mas sim porque têm dificuldade. Assim, ou aprendem a língua de sinais ou não se comunicam. É necessidade e não preguiça.
A família também deve aprender Libras?
Maria Cristina: Sim. O melhor é que os pais também aprendam a língua de sinais porque é na interação com a família que os filhos vão se desenvolver, adquirir valores, cultura etc. Ter uma língua em comum é importante não apenas do ponto de vista da comunicação, mas também para o desenvolvimento intelectual, afetivo, emocional da criança. O ideal é que os pais enfrentem esse desafio, aprendam Libras e que as crianças aprendam a língua de sinais e também sejam expostas à Língua Portuguesa escrita.
Com que idade uma criança consegue aprender a língua de sinais?
Maria Cristina:
 Vou responder com uma pergunta: uma mãe começa a falar com seu filho quando ele tem que idade? Desde antes de nascer, não é? Então, o ideal seria que, assim que a criança nascesse e fosse constatado que ela é surda, iniciasse a aquisição da língua de sinais. Quanto mais cedo, melhor. E, assim como acontece com a Língua Portuguesa em relação aos ouvintes, a língua de sinais deve ser ensinada como disciplina ao longo de toda a Educação Básica. Na rede municipal de São Paulo, por exemplo, elaboramos um currículo para alunos surdos com expectativas de aprendizagem em Libras que vão da Educação Infantil ao 9º ano do Ensino Fundamental.
Quais são as condições básicas para se alfabetizar uma pessoa surda?
Maria Cristina:
 O ponto de partida é a criança surda saber a língua de sinais. O ideal é que o professor também saiba a língua de sinais para que ele possa ser o mediador entre as duas línguas. No entanto, considerando que as crianças surdas podem estar em salas regulares com crianças ouvintes, serão necessários dois professores: o professor da sala (regente) e um professor especialista em surdez, que possa fazer o papel de mediador entre a língua de sinais e a Língua Portuguesa. Ter apenas o professor da sala trabalhando com um intérprete que não entenda de alfabetização não é suficiente no início da escolaridade.
Nesse caso, qual é o trabalho do intérprete na sala de aula?
Maria Cristina:
 O intérprete só interpreta. É fundamental ele ter clareza do seu papel. Ele não pode ser confundido com o professor porque há o risco do aluno surdo não saber a quem recorrer. O professor da sala não pode se sentir isento da responsabilidade de ensinar os conteúdos ao aluno surdo. E o intérprete precisa garantir ao aluno surdo o acesso ao conteúdo que será trabalhado em Língua Portuguesa. Toda comunicação precisa ser feita em língua de sinais para a criança surda.
Qual é a relação entre a língua de sinas e a Língua Portuguesa?
Maria Cristina:
 As línguas de sinais se distinguem das línguas orais porque se utilizam do canal visual-espacial e não oral-auditivo. Porém, ambas possuem um léxico, isto é, um conjunto de símbolos convencionais, e uma gramática com um conjunto de regras que regula o uso desses símbolos. Primeiramente se dizia que a língua de sinais facilitava a aquisição da Língua Portuguesa. E eu perguntava: facilita como? Que ela tem um papel fundamental nessa aprendizagem não há dúvida. Mas como? Com o tempo e depois de muita pesquisa, compreendemos que é preciso mostrar aos alunos que aquilo que é expresso na língua de sinais também pode ser representado na Língua Portuguesa escrita. O professor precisa escrever o que as crianças estão comunicando por meio de sinais. Outra prática fundamental é a leitura feita pelo professor dos textos em língua de sinais. É essa leitura que possibilita a atribuição de sentido àquilo que está escrito no papel em português. Portanto, é necessário que a Língua Portuguesa seja o tempo todo apresentada e interpretada em Libras. Um trabalho de tradução mesmo.
Como deve ser o processo de alfabetização dos alunos surdos?
Maria Cristina:
 Depende da concepção de alfabetização do educador e da instituição. Se o educador alfabetiza ouvintes com a cartilha, vai alfabetizar os surdos com a cartilha também. E eles vão se sair muito bem na decodificação. Mas o resultado não vai ser muito diferente do aprendizado da criança ouvinte: eles não vão entender o que estão lendo e também não vão conseguir escrever. Há grandes chances de todos eles se tornarem analfabetos funcionais. Agora, se a gente acredita que alfabetização e letramento estão juntos, é preciso inserir a criança surda nas práticas letradas. Do mesmo jeito que se faz com as crianças ouvintes. Só que, com as crianças ouvintes o que se busca é relacionar aquilo que está escrito com aquilo que se fala e ouve. Com os surdos é preciso relacionar o escrito com o que se mostra e vê, ou seja, as imagens, os movimentos, as expressões faciais e os sinais. É possível alfabetizar, mas insisto: na sala de aula com alunos ouvintes não é um único professor que vai dar conta. É preciso ter, junto com o professor da turma, um professor especialista que saiba a lingua de sinais.
E como se dá o processo de aquisição da língua escrita pelas crianças surdas?
Maria Cristina:
 Os surdos criam hipóteses de escrita, assim como os ouvintes. As primeiras hipóteses são muito parecidas. As crianças ouvintes começam a escrever usando as letras do nome próprio. As surdas, também. Só que as hipóteses dos surdos são visuais e não auditivas. E aqui está um sério problema para nós, pesquisadores, para convencer os linguistas e os educadores de não cair na armadilha da oralização. As crianças surdas, assim como as ouvintes, vão chegar à escrita alfabética, mas a sua relação com a escrita se dará por meio da visão. O processo é muito mais demorado do que com os ouvintes porque elas estão entrando em contato com a Língua Portuguesa pela primeira vez.
O professor deve usar textos facilitados com esses alunos?
Maria Cristina:
 De jeito nenhum. Na década de 70, quando o ensino dos surdos priorizava a oralidade havia o costume de facilitar os textos para as crianças surdas, usando estruturas sintáticas simples, com orações sempre curtas e diretas. E simplificando também o vocabulário. A facilitação acabou limitando a possibilidade de leitura, de uso social da língua, tornando os surdos incapazes de ler textos reais. Facilitar sempre pressupõe o outro como incapaz. E a surdez não torna o sujeito incapaz de ler e escrever. É a Educação que possibilita ou não o acesso às práticas sociais de leitura e de escrita.
Como o professor deve trabalhar conteúdos que estão vinculados à fala? A acentuação, por exemplo?
Maria Cristina:
 Tudo por meio da visão. O que é muito complicado trabalhar pela visão é a sílaba tônica de uma palavra. A língua de sinais não tem acento. Os surdos acabam aprendendo a acentuar as palavras pelo visual, pelo desenho da palavra e não, obviamente, pela sonoridade. Mas aprendem. Principalmente os que lêem muito.



Fonte: Revista Nova Escola

2 comentários:

  1. Parabéns!De uma grande ajuda esta entrevista, onde tirei algumas dúvidas obrigada.

  1. Obrigada Sirlene pela visita! Tentarei postar mais entrevistas ok?
    Beijos sinalizados!

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